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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Reality show 'Intervenção', com dependentes de drogas, é criticado por psiquiatra

Reality show 'Intervenção', com dependentes de drogas, é criticado por psiquiatra

Os dependentes brasileiros de drogas ganharam seu próprio reality show.

 

Reality mostra o drama de pessoas reais
Estreia na quarta, no canal A&E, a série "Intervenção", a versão brasileira de um formato americano.
Controverso, o programa retrata a rotina de um viciado em drogas que desconhece que está num reality show --pensa que participa de um documentário.
Depois de ter todo o drama filmado, ele recebe a oferta de tratamento. Um médico (interventor) propõe internação em uma clínica. O dependente escolhe em frente às câmeras se quer ou não.
Os familiares, antes dele, conversam com o médico, que orienta como devem se comportar na hora do ultimato.
Psiquiatras da área de dependência química criticam a série. "Vi a versão americana e achei um 'Big Brother' horroroso. Lá muitos são famosos e isso atrai audiência", afirma André Malbergier, professor da USP e coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas.


QUASE FILME?

Krishna Mahon, produtora-executiva de programação e conteúdo do A&E, explica que o formato nos Estados Unidos é chamado de "docu-reality", ou seja, uma mistura de documentário com reality show.

Vanessa, que participa do primeiro episódio do reality "Intervenção", do A&E
"É uma linha muito tênue que separa uma coisa da outra", ela defende.
Para Ana Cecília Marques, psiquiatra da Abead (Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas), expor o dependente químico piora o estigma da doença. 
Ela diz que o programa mostra um único perfil de paciente (o que chegou ao fundo do poço) e um só modelo de tratamento (a internação).

 "Tenho um monte de pacientes que usam crack e que se tratam no consultório. A internação é para uma minoria e deve ser decidida sempre em conjunto com uma equipe multidisciplinar."

Malbergier também questiona se haverá benefício ao paciente. "Os dependentes vão melhorar ou é para os voyeurs sádicos interessados em ver sofrimento humano?"

Outro ponto criticado pelos especialistas são os altos índices de recuperação dos dependentes divulgados pelo programa, "mais de 70%".

"Se alguém no mundo inventar um tratamento de dependência que recupere 70% dos pacientes, merecerá o Prêmio Nobel", diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, que coordena a Uniad (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Faculdade de Medicina) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
O psiquiatra Fábio Damasceno, o "interventor" do programa, acha a crítica boa. "Essa porcentagem deve ser apenas sobre os que completaram o processo terapêutico, não a população."
Ele admite que o programa pode ser chocante ou ter um apelo estético sensacionalista. "Mas há milhares de pessoas com problemas semelhantes que não têm representação social", afirma.
Segundo Reinaldo Ayer, professor de bioética e membro do Conselho Regional de Medicina (Cremesp), os médicos que participam do programa também podem ser processados por infração ética por quebra de sigilo.

"É muito grave. O paciente não pode ser enganado. O médico também não pode fazer a revelação pública de um determinado tratamento que o paciente vai receber."

Fonte: Elizangela Roxo/ Folha de São Paulo


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