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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Entrevista: Ronaldo Laranjeira

Um dos principais especialistas em dependência química no Brasil fala ao Infosurhoy.com sobre como combater as drogas no país.
Por Cristine Pires para Infosurhoy.com – 20/07/2012

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“O Brasil precisa enfrentar esta enorme rede de distribuição que, combinada com o preço baixo da cocaína e do crack, fruto do fato de termos vizinhos produtores, alimenta a pandemia [de drogas]”, diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira. (Guilherme Gomes para Infosurhoy.com)
 

PORTO ALEGRE, Brasil – Para vencer a luta contra as drogas, o Brasil tem investido bilhões de reais em iniciativas para prevenção e tratamento aos dependentes químicos no país.

O foco central é o crack, considerado por autoridades e especialistas um grave problema de segurança e de saúde pública.

Entre as medidas adotadas pelo governo brasileiro está o Plano Nacional de Combate ao Crack, lançado em 2011 e que prevê investimentos de cerca de R$ 4 bilhões em ações de enfrentamento ao crack até 2014.

A meta é que os recursos sejam aplicados em prevenção, tratamento e repressão ao crime organizado.

Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, um dos fundadores da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (UNIAD), é preciso atualizar as políticas públicas nacionais voltadas ao tratamento e prevenção do uso de crack e outras drogas.

Em funcionamento desde 1994, a UNIAD é um centro de excelência em ensino, pesquisa, prevenção e tratamento do uso indevido de álcool, tabaco e outras drogas.







“O primeiro passo é criar uma gestão diplomática entre os países vizinhos para reduzir a produção de drogas”, afirma Laranjeira, que também é professor titular do Departamento de Psiquiatria da Unifesp, diretor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e outras Drogas (INPAD) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).


Considerado um dos principais especialistas em dependência química do Brasil, Laranjeira falou com exclusividade ao Inforsuhoy.com sobre a importância de envolver todo o país na luta contra a pandemia de crack.

Infosurhoy
: Qual a sua avaliação sobre o Plano Nacional de Combate ao Crack?

Laranjeira
: Na verdade, o Brasil ainda não se deu conta da gravidade da situação. Tanto que não temos uma gestão diplomática no sentido de diminuir a produção de drogas nos países vizinhos. O Brasil faz fronteira com os maiores produtores de cocaína: Bolívia, Peru e Colômbia. Cerca de 80% da cocaína consumida no país vem da Bolívia, onde a produção continua crescendo. Reduzir a produção nesses países é fundamental..

Infosurhoy: O caminho de entrada da droga no país é praticamente o mesmo ao longo da última década. Por que então o problema se agravou?

Laranjeira: Nos últimos 10 anos, o Brasil registrou um aumento estrondoso no número de pontos de vendas de drogas. Há uma década, o fenômeno estava restrito às grandes cidades. Hoje, verificamos isso de norte a sul, leste a oeste. Todos os municípios brasileiros estão infestados com pontos de tráfico. O Brasil precisa enfrentar esta enorme rede de distribuição que, combinada com o preço baixo da cocaína e do crack, fruto do fato de termos vizinhos produtores, alimenta a pandemia que temos. Se não fizermos uma política rigorosa de conter importação e a rede distribuição, os problemas vão continuar.

Infosurhoy: Mas o sistema de tratamento é eficaz?

Laranjeira: Não adianta ter apenas um sistema de tratamento para diminuir o consumo de crack. Não podemos contar com um monte de boas intenções genéricas. Desde que o governo federal anunciou o plano, em 2010, até agora, pouca coisa mudou. Muitos estados ainda não receberam as verbas prometidas. É preciso levar em conta o aspecto macro do problema: produção, distribuição e baixo preço.

Infosurhoy: Qual sua sugestão então?

Laranjeira : O Brasil tem que definir estratégias para lidar com esses problemas. Os consultórios de rua também não apresentaram eficácia. Quantas pessoas foram tiradas da rua por essa sistemática? Não se tem um número nem mesmo uma avaliação da efetividade dos consultórios de rua. Outro ponto que precisa ser revisto é o fato de o governo defender que as internações dos dependentes químicos sejam feitas em hospitais gerais. Acho isso um absurdo. A maioria dos hospitais não vai querer receber um usuário de crack, e leitos isolados também não vão adiantar. Precisamos ter hospitais especializados.

Infosurhoy: E como trabalhar na prevenção?

Laranjeira: O Brasil teria que criar uma rede de prevenção mais efetiva, com um programa que ainda não temos, voltado principalmente aos grupos de risco. E, quanto a grupos de risco, me refiro a adolescentes que abandonam escola, vão mal nos estudos ou começaram a experimentar drogas. A maioria dos usuários de drogas, cerca de 90%, começa a experimentar na adolescência.

Infosurhoy: A estratégia da redução de danos é uma alternativa?

Laranjeira: A redução de danos consiste em oferecer uma outra droga, teoricamente menos prejudicial, com o objetivo de evitar a abstinência. Alguns países que adotaram esse sistema abandonaram a metodologia nos últimos dois anos. Na Inglaterra, por exemplo, eles descobriram que a eficácia da redução de danos foi de apenas 4%. Quando eles viram que investiram milhões e tinha dado um retorno tão baixo para sociedade, abandonaram o conceito e agora a abstinência é o foco do tratamento. Então, no caso do crack, sou desfavorável à proposta do Ministério da Saúde de fazer tratamento baseado em redução de danos como única alternativa.

Infosurhoy: Qual a alternativa então?

Laranjeira: Nas casas assistidas, programa em São Paulo, os dependentes químicos não podem usar drogas. Além da moradia, eles têm direito a todo o tratamento, mas para ter direito a tudo isso é preciso que fiquem abstinentes. Se em uma casa dessas há 10 usuários e um deles usa a droga, é mais provável que aquele que recaiu leve os outros 9 com ele. Isso mostra o drama que é o uso do crack.

Infosurhoy: Mas então é possível recuperar usuários?

Laranjeira : Certamente. O Ministério da Saúde precisa oferecer uma estrutura de tratamento via clínicas de internação. O Sistema Único de Saúde (SUS) não tem esse nível assistencial. Por enquanto, só quem tem dinheiro procura uma clínica de qualidade. O Ministério da Saúde precisa ter a visão do que realmente funciona no sistema de tratamento e abandonar técnicas ultrapassadas. Além da falta de experiência conceitual, a burocracia impede o dinheiro do programa de chegar aos locais que necessitam dessas verbas.

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